Sou obviamente um ser humano preocupado com o ambiente. Digamos que sou um mãozinhas ecológicas. E uma das coisas que mais me preocupa nos grupos e discussões ambientalistas é, que quando falam do aquecimento global fazem-no exclusivamente com ênfase nos aspetos negativos do mesmo. Mas ninguém se lembra dos efeitos benéficos que daí poderão advir. Por exemplo, com o aumento da temperatura entrará em extinção uma das patologias mais emblemáticas que assolam os humanos: O ombro congelado. É o fim das estalactites do labrum, ou das estalagmites da cabeça do úmero. Que descanse em paz.

 

Contudo, e enquanto o aquecimento global não chega, as dores cervicais e do ombro continuam em voga, figurando entre as três principais lesões do foro músculo-esquelético. Uma das preocupações que tenho, ao tratar utentes com sintomatologia álgica a nível do ombro/cervical passa por avaliar a posição e o movimento da escápula. Esta tem um papel primordial no jogo de forças que se verifica entre a coluna cervical, torácica e ombro para além de que necessita de um ratio perfeito entre flexibilidade, força e controlo motor. A sua centralidade faz com que influencie tanto a cadeia cinética do membro superior como do membro inferior (um dia conto-vos os meus delírios acerca da necessidade de termos um alinhamento da EIPS com ângulo inferior da omoplata na conexão entre a cintura escapular e pélvica).

A posição inicial da omoplata (“scapular setting”) prediz a qualidade do movimento do membro superior. E neste campo há três “messis” que são capazes de nos trocar as voltas com as suas fífias. Trapézio Superior (TS), Serrátil Anterior (SA) e Peitoral Menor (PM). Comecemos pelo little one. O PM pela sua origem na apófise coracóide e inserção ao nível das costelas provoca um tilt anterior da omoplata, criando tensão nos ligamentos coraco-claviculares (conóide e trapezóide) arrastando a clavícula numa rotação anterior e criando uma diminuição do espaço sub-acromial. Pela relação anatómica com o triangular do esterno, fico sempre na dúvida se estes não poderão ser dois músculos importantes quando penso em encurtamentos das cadeias cruzadas. Não têm a potência nem as “sectional areas” de um oblíquo ou grande dorsal mas são os CEO’s da operação.

 

O SA é sem dúvida dos três o mais interessante. É um dos principais, senão o principal, responsável pela protração da escápula. No entanto, para mim é o músculo que tem de ter melhor performance, porque pela sua origem (face interna do bordo medial da omoplata) permite a coaptação desta à grelha costal essencial no movimento de “upward rotation”. Contudo, é ele que quando entra em modo “workaholic” (começo a usar muitos termos em inglês que é só para parecer que sei muito), me altera a posição das costelas e consequentemente da grelha costal. E este é um fator que durante muitas vezes me descuidei, pois a orientação das costelas é fundamental para o deslizamento da omoplata na grelha costal.

 

O TS é músculo hiperativo do pedaço. Quem dera que houvesse uma Ritalina que o acalmasse. Sempre utilizado na reação antálgica e servindo de link entre a região cervical e ombro. A EMG apresenta diferenças significativas entre ele e o trapézio Médio (TM ) e Trapézio Inferior (TI) em casos de discinésia da escápula. É necessário aferir a sua atividade porque nos pode influenciar no “scapular setting” forçando a rotação da clavícula no sentido posterior demasiado cedo, quando esta só deveria acontecer aos 90 graus, altura da rotação do úmero no espaço sub-acromial.

 

Uma das modificações práticas que fiz nos últimos tempos foi deixar cair alguns exercícios para rombóides. Primeiro, porque os vejo cada vez mais como executantes da retração da escápula e não como músculos posturais, e depois porque a grande maioria dos utentes realiza extensão do tronco com “anteriorização” do segmento dorsal ao invés de retração da escápula. E depois a emenda ainda é pior que o soneto.

 

Contudo o “setting” da omoplata é extremamente difícil de conseguir. Sobretudo porque não existe uma imagem mental dos movimentos, e muito menos um controlo ativo da mesma. Em termos práticos costumo pedir aos meus utentes para palparem com a mão contra-lateral a apófise coracóide e pedindo-lhes para a afastarem a dos dedos com o movimento da omoplata. Durante o tratamento, costumo optar por facilitar (segundo conceito de bobath) a posição da omoplata partindo da mão. Costumo utilizar o movimento 5º raio, estabilizador da mão, associado à prono-supinação utilizando como referência a articulação rádio-cubital inferior para conseguir uma melhoria da posição da omoplata.

 

Para terminar, porque acho que já devem ter os olhos secos de tanto texto, deixo-vos apenas uns lamirés (agora foi francês, voltei a descer o nível) que acho interessante. Alguns estudos demonstraram que um dos exercícios importantes de realizar para o trabalho da omoplata são os “push-ups”, sobretudo se estes forem feitos com os cotovelos apoiados. Nesta posição, a atividade do SA pode ser aumentada se existir elevação da perna ispi-lateral, ao invés de que a extensão contra-lateral da perna aumenta a ativação do TI.

 

Só para voltar ao nível basal em termos de qualidade, despeço-me com um “Addio, adieu, aufwiedersehen, goodbye”.