Ora hoje venho falar-vos de triângulos. Acho que vos tenho inundado com demasiada informação e decidi que este texto seria dedicado a rever velhos conteúdos de matemática e física, para estimular a memória a longo prazo e os belos tempos de secundário… Só que não…

 

O passado está escrito, portanto vamos em frente rumo ao futuro.

 

O texto de hoje é de uma região sobre a qual desenvolvi particular interesse ao longo dos tempos, e que na tentativa de aprimorar os meus conhecimentos levei mais uma bela de uma nalgada mágica da Sra. Anatomia, que me veio provar que estamos sempre em constante evolução e aprendizagem.

 

A região entre o bordo lateral da omoplata e a face posterior da axila têm a meu ver uma especial importância. Sempre fiquei com a sensação que quanto menor fosse esse espaço, quanto menor qualidade tecidular houvesse na região, pior seria o alinhamento e função do ombro, pois aumentava a anteriorização e rotação da cabeça do úmero, assim como provocava uma alteração da posição da omoplata e a sua capacidade de efetuar uma “downward rotation” /”upward rotation”.

 

E foi então que descobri que esse espaço é constituído por três triângulos, o de Avelino Gutierrez (ou úmero-tricipital, aka “triangular interval”), triângulo Omo-tricipital e o quadrilátero Úmero-tricipital (ou triângulo de Velpeau). A junção dos dois últimos é também conhecida como triângulo dos redondos. Estas formas geométricas são importantes na conexão entre omoplata e região axilar e ganham vida pelas estruturas vasculo-nervosas que passam por entre elas, sendo portanto, importantes locais de compressões e neuropatias que se traduzem posteriormente na sintomatologia distal.

 

O triângulo Úmero-tricipital ou de Avelino Gutierrez tem como limite superior o músculo redondo maior, o úmero na sua região lateral e o tricípite na sua região medial. Nele passa o nervo radial e a artéria umeral profunda. A compressão do nervo radial na sua passagem por este espaço origina uma patologia conhecida como “Triangular interval syndrome”, que se caracteriza como uma radiculalgia do nervo radial a que se associa dor na região posterior do ombro.

 

O triângulo Omo-tricipital tem como limite superior o músculo redondo menor, limite inferior o redondo maior sendo que o tricípite é o seu limite lateral. É zona de passagem da artéria circunflexa.

 

O quadrilátero Úmero-tricipital é composto pelo redondo menor, redondo maior, úmero e porção larga do tricípite braquial. No seu interior passam o nervo circunflexo (ou axilar) e suas divisões, artéria circunflexa posterior e veias satélites. A compressão do nervo circunflexo (responsável por enervar o deltóide, o redondo menor e a longa porção da tricípite) durante a sua passagem nesta região dá origem ao “quadrilateral space syndrome” que consiste numa alteração da enervação causando fraqueza ou atrofia sobretudo do deltóide e do redondo menor. Há ainda relato de casos em que a compressão da artéria circunflexa pode levar a isquémia nos dedos e mão.

 

São pormenores que podem fazer a diferença na nossa avaliação e tratamento. Portanto vamos em frente 😀