Ultimamente tenho andado com umas dores de cabeça meias estranhas. Não sei se tenho uma arritmia do ritmo sacro craniano ou se uma cortexalgia. Se bem que, fazendo uma auto-anamnese, percebo que estas dores do tipo facada agudizam sempre que trato um paciente que me diz, que o seu problema está diagnosticado sendo que a patologia de que sofre acaba em “ALGIA”. Bem sabemos que a etiologia é difusa, mas daí a confundir um sintoma com uma patologia causa-me algum prurido cerebral (este é outro dos sintomas da cortexalgia, pelo que estou mais inclinado para ser esse o meu problema). Mas adiante…

 

São vários os casos de utentes que se queixam de dores cervicais e, que quando exploramos a anamnese, nos contam que desde sempre que se lembram de fazer contracturas com muita frequência nessa região. Muitos afirmam que a causa pode ter sido de uma corrente de ar que apanharam. A não ser que tenham sido levados por uma aragem do canhão da Nazaré e projetados no ar 50 metros, tenho dúvidas que possa ser essa a causa. E ando eu, que nem a Sandra Felgueiras do Sexta às 9 a fazer investigação acerca do caso. Ora bem, e nessas pesquisas tropeço na hipótese colocada por alguns autores, de que as cervicalgias de origem mecânica poderem ter origem na alteração da inervação do trapézio por patogenia do nervo espinal. Mas vamos por partes. A cervicalgia mecânica tem várias definições, sendo que a utilizada pela IASP (International Association for the Study of Pain) é a dor na coluna cervical, desde a linha nucal até à primeira vértebra torácica. Esta divide-se em três grupos (aguda, sub-aguda e crónica).

 

Um dos achados muito interessantes que encontrei é que alguns estudos usam um Algómetro de pressão para medir a quantidade de dor. Pessoalmente desconhecia a existência deste aparelho, que caso seja fiável parece-me uma ferramenta bem interessante para avaliar e quantificar a dor. Confesso que não sou propriamente fã da EVA e poderei ter encontrado um aparelho que me ajude a quantificar os resultados das intervenções.

 

A hipótese de possível alteração da qualidade tecidular do trapézio por alteração da inervação do mesmo, tem por base na suposição do nervo espinal ser comprimido em qualquer parte do seu percurso, tal e qual um nervo raquídeo. O que poderá fazer sentido se fizermos a analogia com a sintomatologia que uma compressão do mediano ao longo do seu trajeto. Um dos lugares de possível compressão é o Foramen Jugular (situado na sutura occipito-mastoideia). Ora o foramen jugular é um local de particular interesse pois é local de passagem para os pares cranianos IX, X e XI, a artéria meníngea, seio lateral e a veia jugular interna.

O nervo Espinal tem, de forma sucinta, uma rama medial e uma rama lateral que se dirigem para o ECOM e para o trapézio, podendo justificar cervicalgias de origem mecânica. Nesta patologia é comum verificar afetação da musculatura cervico-torácica.

 

De maneira que, por entre as pesquisas que realizei, verifiquei que nalguns casos pediátricos se efetua uma técnica cirúrgica de descompressão deste complexo nervoso a nível do foramen jugular para por exemplo, o tratamento de torcicolos congénitos. Pelo que se deixa no ar a hipótese da possível compressão do XI nervo nesta “saída de emergência” cranial.

 

Mas de todos os artigos que li, o que achei mais interessante é aquele elaborou um estudo sobre a condução nervosa do espinal em utentes com síndrome de dor miofascial cervical e que “prova” a degeneração neuroaxonal com alteração da transmissão neuromuscular, podendo haver uma relação da sintomatologia álgica com a existência de uma neuropatia. Os autores referem ainda a possibilidade desta alteração do nervo ser a causa de TP e de badas tensas. Outra das curiosidades encontradas, por este estudo, é o facto de este ter mostrado que estes resultados foram estatisticamente significantes para as fibras do trapézio superior mas não para as fibras do trapézio médio e inferior.

 

Este foi o primeiro episódio do Fisioterapia às 9, a nova rubrica de investigação da investigação científica. Se tiverem informações úteis a cerca de outros temas a pesquisar não hesitem em contactarem-nos. 😀

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Referências bibliográficas:

  • RODRIGUEZ, Joaquín Muñoz. Efectos de la técnica con arcos botantes para la abertura de la sutura occipitomastoidea en pacientes con cervicalgia mecânica. 2012
  • Chang CW, Chang KY, Chen YR, Kuo PL. Electrophysiologic evidence of spinal accessory neuropathy in patients with cervical myofascial pain syndrome. Arch Phys Med Rehabil. 2011 Jun
  • The International Association for the Study of Pain