“Em vez de condicionar a profissão… a ciência deveria ajudar-nos a demonstrar a evidência clínica, o que sabemos que funciona com o paciente mesmo que não saibamos exatamente o porquê”  (version espanol)

Os métodos e técnicas que conformam, atualmente, a fisioterapia a nível mundial são herdeiros de anos de prática e ensaios de tentativa-erro com pacientes. São o resultado da transmissão de conhecimentos, de mestre para o aluno, da PRÁTICA CLÍNICA que tem vindo a gerar de forma espontânea uma espécie de “seleção natural” dos métodos e técnicas que são efetivos. Por forma a que nos dias de hoje tenhamos as ferramentas de trabalho que sejam benéficas para o paciente.

Nos últimos anos, dentro da formação e prática da fisioterapia há uma orientação, cada vez maior, para o “baseado em evidência”. Inclusive em alguns ramos ou setores profissionais está-se a polarizar a um ponto que se considera que o que não está provado cientificamente simplesmente não serve.

Uma vez que estamos num blog onde nos pedem que emitamos a nossa opinião… aqui vai a minha:

É maravilhoso que a efetividade de uma técnica ou método em fisioterapia esteja demonstrado cientificamente. Disso não há dúvida nenhuma.

Contudo… dado que é uma profissão que deve ter em conta aspetos multifatoriais da saúde do paciente e que um mesmo sintoma ou patologia física, na realidade, pode ter diferentes origens (físicos, neurais, emocionais, digestivos…). Quem, como, ou porquê, se deveria decidir que técnicas e métodos são úteis para esse caso? E como é que aplicamos ou de que modo? Em quantas repetições e a que ritmo? Pois na realidade, é o próprio terapeuta com a sua experiência clínica o que diz ao profissional com qual técnica, em que casos e de que maneira se obtém mais resultados. Ao trabalhar com milhares de pacientes (aceitando de forma indubitável que é uma profissão onde a experiência, junto à formação contínua, é a ferramenta mais importante) e dar-me conta que inclusive o mesmo método ou técnica aplicado exatamente da mesma maneira a pessoas diferentes… jamais funciona igual.

Pode inclusive acontecer que, ainda que se use um método cientificamente demonstrado para melhorar algo, se não tiver em conta mais elementos, o paciente não se curará de forma definitiva. Por exemplo, ultimamente têm aparecido métodos que ajudam a desinflamar os tendões (que parecem estar cada vez mais demonstrados que efetivamente os desinflamam localmente). Contudo… Se não tenho em conta o músculo que pertence a esse tendão, a sua inervação, as possíveis compressões desse nervo ao longo do seu trajeto ou no seu nível vertebral com alteração da sua neurodinâmica… Senão tenho em conta a correta micro mobilidade das articulações que esse músculo move (que se não é boa, o músculo vai estar sempre a fazer um sobre-esforço e consequentemente micro lesionar-se permanentemente)… Senão normalizo a cadeia miofascial a que esse músculo e tendão pertencem (tendo em conta que alterações à distância o podem afetar), senão tenho em conta a tensão fascial do endomisio e perimísio desse próprio músculo (que é o material de que é feito o tendão) e sua possível afetação por posição incorreta ou alterações emocionais.. Senão tenho em conta a alimentação do paciente e portanto, a oxigenação e nutrição do tecido… Senão tenho em conta a função real desse músculo e o seu correto fortalecimento… e muitas mais outras coisas de que poderíamos falar, será que esse tendão se vai a curar só com essa técnica?

Este é apenas um exemplo, contudo o que eu quero comunicar é a inquietação própria na hora de relacionarmos a fisioterapia e os estudos científicos.

Na minha opinião não devemos duvidar que a nossa profissão deve ser individualizada, deve atender a todos os aspetos que façam que o paciente tenha o problema que tem e isso significa que cada um é verdadeiramente único. E que, mais precisamente os estudos científicos se baseiam em repetir um certo padrão que lhes permita obter um resultado igual…

Não devemos duvidar, como diz o título deste artigo (que foi uma frase surgida num contexto informal numa conversa com um fisioterapeuta australiano, que é por sua vez um grande clínico e um reconhecido investigador científico com muitos estudos científicos publicados): “Em vez de condicionar a profissão… A ciência devia ajudar-nos a demonstrar a evidência clínica, o que sabemos que funciona com o paciente, mesmo que não saibamos exatamente o porquê”.

Tenho a sorte de poder atender pacientes e de ser formador de fisioterapeutas em vários países desde à cerca de 9 anos, e me preocupa observar que, em quase todos os lados e cada vez mais, se ensina os futuros profissionais que só acreditem, procurem e apliquem o que está cientificamente provado. E cada vez se transmite menos a ideia que é a experiência clínica, a aprendizagem prática com outros profissionais, e que a visão global do paciente são cruciais. E para que possamos ter um critério próprio e eficiente há que provar, provar e provar.

Sem dúvida que esta opinião poderá gerar muita contestação e opiniões diferentes, as quais serão sempre positivas e bem-vindas para fazer crescer uma profissão. Estamos num blog criado exatamente para isso.

 

Obrigado

Tomas Bonino

Fisioterapeuta.

Diretor de BONSALUD

Fundador da ESCUELA INTERNACIONAL DE TERAPIA FÍSICA (ESITEF)

Editor de FISIOREPORT.COM