Calma meu povo que hoje não venho falar de Dexter, a série do homem meio homicida, meio justiceiro com o Michael C. Hall e que se mantém, ainda hoje, como uma das minhas séries televisivas. Mas sim de Dexter o cientista louco dos desenhos animados que eu via na TVE. Para os mais descuidados TVE é a Televisão Nacional Espanhola. É tipo a RTP mas com qualidade, sendo que esta é uma das vantagens de se viver no interior, uma vez que apanhamos televisão de nuestros hermanos. Isso e sermos parentes da Raihanna, irmã gémea da outra mas só que esta nasceu na zona da Raia (alguém que solte aquele famoso genérico de uma novela da TVI que se iniciava com o seguinte verso musical “duas vidas separadas pelo tempo”).

 

Coff Coff, desculpem a mentalidade é que tem estado tanto frio que nem consigo pensar. Mas lembrei-me do Dexter uma vez que, tal como tantos de nós, ele também manipulava. E foi essa imagem com que fiquei na cabeça quando ouvi pela primeira vez a expressão “manipulava-te a cervical e ficavas bom”. Confesso que não sou fã do termo, e é algo que evito dizer aos meus utentes, visto que em termos linguísticos o significado de manipular vem acoplado de todo um sentimento negativo e pejorativo, podendo nalguns utentes ter um efeito menos positivo. Dizer ao utente que vai ser alvo de uma manipulação poderá fazer emergir sentimentos de medo, receio, condicionando a própria técnica e o tratamento. É no fundo como se fôssemos modificar a posição, alterar algo biológico ou simplesmente mudar de lugar o que à luz da evidência científica sabemos ser impossível.

 

Mas adiante, a ideia do texto de hoje é dar um pouquinho de continuidade ao texto da Insuficiência Vertebro Basilar (VBI), só que noutro sentido. Isto é, vimos que o teste de Klein não é fidedigno para o despiste de VBI, que em indivíduos sem patologia a oclusão arterial ocorre, sendo que este é um processo fisiológico. Essa oclusão será máxima no limite da rotação e da extensão cervical. No entanto, a maioria de nós utiliza o teste para despiste de VBI para podermos executar algumas técnicas de terapia manual, como a manipulação cervical, de forma segura e garantir que não há risco associado. Agora que sabemos que o teste de Klein não é fidedigno nem seguro, surge outra questão. Manipular põe ou não em risco a artéria vertebral podendo causar por exemplo uma disseção arterial? A Cervical artery dissection (CD) pode ocorrer por lesão da artéria vertebral e carótida interna. É difícil saber a prevalência da lesão uma vez que muitos dos casos são assintomáticos, ainda assim, ocorrem sobretudo em utentes com média de idade entre os 44 e os 45,3 anos, sendo mais predominante nos homens. Um dos fatores associados prevê-se que seja uma alteração da matriz celular da artéria, com alteração do colagénio e fibras elásticas, numa afetação do seu tecido conectivo. A obesidade e a hipercolesterolémia são dois fatores de risco pelo que os devemos ter em conta quando efetuamos a anamnese do utente.

 

Durante uma manipulação cervical estima-se que a força aplicada seja de 100 a 150 N. Este valor é substancialmente mais baixo que a manipulação aplicada num cadáver (média de 200 a 273 N) e deve ser tida em consideração no grupo de estudo, pois alguns dos artigos comparam a manipulação sendo esta aplicada em cadáveres. Por curiosidade, a força utilizada numa manipulação cervical é significativamente mais baixa que na região torácica e lombar.

 

Os estudos que se propuseram a medir a tensão arterial (% de alteração do vaso em relação ao seu comprimento na posição neutra) causada pela manipulação, concluem que esta atinge os 6% enquanto numa rotação ou extensão máxima efetuada de forma passiva da cervical esta tensão atinge os 12%.

 

Atualmente não existe evidência suficiente que nos permita estabelecer uma relação causa efeito entre a manipulação e a disseção arterial, uma vez que a maioria da literatura disponível são estudos de caso ou “expertise opinions”. Ou seja, na ausência de evidência de qualidade acredita-se que a incidência é baixa no entanto deve ser tomada em consideração no momento da execução da técnica. No fundo, acredita-se que a manipulação possa funcionar como um trigger no surgimento do CD, na medida em que movimentos simples ou mantidos que efetuamos no dia-a-dia tenham o mesmo efeito.

 

O interessante é perceber qual a lógica associada entre a manipulação e a lesão, e não apenas estar preocupado com a alteração que a técnica pode ter no fluxo sanguíneo. Uma das causas de CD pode ser a lesão da parede vascular, com a criação de um hematoma intra-mural e que condicione a passagem do fluxo sanguíneo ou que se solte e forme um trombo. Neste sentido, a preocupação centra-se no local da manipulação. Sobretudo as manipulações cervicais altas aumentando o contacto e a pressão da artéria vertebral (neste caso) entre C1 e C2. Não esquecer que a artéria carótida interna também pode ser lesada, sendo que o facto de ser mais móvel é um ponto a favor.

 

Ora conclui-se portanto que não há evidência que permita a associação direta entre CD e a manipulação cervical, embora os riscos associados à manipulação devem ser comunicados ao utente e o consentimento informado deve ser obtido.

 

E vá, assim me despeço mutchatchos. Um abraço ou beijo enorme em si 😀