VRRRREEEEEEEEEEEEeee  VRRRRRRRRRRRRREEEEEEEEEEEE VVVVVVVVVVVVRRRRRRUUUUUUUUMMMMMMMMMMMM

 

Ai deus nosso senhor nos ajude e nos bote a mão. Esta semana montei-me em cima de uma daquelas plataformas vibratórias para saber qual a sensação. Estava a ver que saía dessa experiência pior que aquelas cachopas inglesas saem depois de frequentarem um qualquer touro mecânico (não humano) lá pelos ALLgarves.

 

Os meus neurónios pareciam estar embriagados a conduzir um carrinho de choque na Feira de São Mateus, em Viseu. Foi uma recuperação difícil e só após uns dias consegui reestabelecer a homeostasia neste “corpitcho”. Mas fiquei na dúvida se alguma das peças tinha saído do lugar. Após um quick-scanning rápido percebi que estava tudo encaixadito mas fiquei preocupado com o piso de cima. Qual seria o efeito que a vibração produz em termos neurais? Na impossibilidade de haver um Prós e Contras acerca desta temática, uma vez que deverão estar preocupados com a preparação de um 4 episódio dedicado à eutanásia, lá me lancei para a PubMed a pesquisar.

 

Sobretudo porque como é costume, fica sempre um prurido cerebral quando abro as vistas para a neuroplasticidade do nosso SCN, da sua capacidade para se reorganizar rapidamente consoante o estímulo que lhe oferecemos. Sabemos, por vias experimentais e científicas, que a imobilização, a estimulação elétrica do nervo, o motor learning e a prática de movimentos “unskilled” são grandes promotores de uma alteração do córtex motor. E como vos falei no artigo da semana passada do TENS, a estimulação do córtex somato-sensorial potencia a organização do córtex motor. E foi com base neste pressuposto que me questionei qual o efeito da vibração em termos corticais. Há alguns estudos interessantes que apontam baterias sobretudo ao seu efeito na junção miotendinosa e que se têm mostrado promissores.

 

Vibrar implica uma estimulação aferente a vários níveis. Num primeiro momento há estimulação mecanoreceptores cutâneos de Meissner e Merkel, uma vez que se encontram mais superficiais e de Paccini numa camada mais profunda. Primeiro facto interessante. Estes mecanoreceptores são ativos a frequências vibratórias diferentes. Os discos de Merkel respondem a frequências vibratórias baixas de (5-15 HZ), os corpúsculos de Meissner a média frequência (20-50 Hz) e os de Paccini a frequências mais elevadas (60-400 HZ).

 

Se depois de passarmos o tecido fascial, continuarmos a profundizar e atingirmos a junção miotendinosa podemos começar a falar de uma estimulação aferente ligada aos fusos neuromusculares. E o que se verifica a este nível com a vibração é a presença de uma resposta reflexa que se chama Tonic Vibrator Reflex (TVR) e que pode induzir a contração muscular semelhante à contração voluntária.

Excetuando os músculos faciais e da língua, todos os outros músculos respondem a este reflexo. A título de curiosidade alguns autores falam que os Órgãos tendinosos de Golgi são menos suscetíveis a serem modificados pela vibração.

 

A aplicação do estímulo para efeitos terapêuticos deve ocorrer num intervalo de frequência entre os 100-150 HZ e uma amplitude de 1-2 mm, sendo o local de aplicação a junção miotendinosa. No entanto, há fatores inter e intrapessoais que devem ser tomados em consideração quando aplicada a vibração, e que podem fazer variar estes parâmetros (por exemplo a posição da cabeça ou o decúbito do utente no momento da aplicação).

Contudo, e apesar desta variabilidade, é aceite que a vibração leva a alterações da ativação do córtex motor sobretudo na área M1. A terapia vibracional vem acompanhada por uma ilusão sensorial que se faz acompanhar do TVR, mas também de outro mecanismo reflexo, conhecido como AVR (antagonistic vibratory response) responsável pela alteração da atividade EMG semelhante à contração muscular voluntária, que ocorre no músculo antagonista ao aplicada a vibração. Apesar de não estar perfeitamente explicado, é provável que o mecanismo de AVR ocorra a um nível cortical mais do que a um nível espinal e, será a frequência a responsável pela ativação do AVR ou do TVR.

 

Apesar das muitas dúvidas que se colocam face à estimulação produzida pela vibração, há algo que é inequívoco. O aumento da área de representação motora, assim como o output motor da região estimulada, sendo que o mais provável é que estas alterações não se devam apenas a uma reorganização do sistema, mas a uma alteração do nível de excitabilidade. Os próximos estudos deverão centrar-se na avaliação das alterações ao nível do movimento e controlo motor após estimulação sensorial. Uma última nota apenas para acrescentar que, para além do córtex motor, a vibração estimula ainda a área pré-motora e área motora suplementar.

 

Mas calma que ainda não ficamos por aqui. De tudo o que li, o que mais me impressionou foi tomar conhecimento da existência do Vibration Induced Falling (VIF). Em suma, a VIF é a resposta corporal automática que se obtém, quando na bipedestação vibramos o tendão de Aquiles ou o tendão do tibial anterior. Quando colocamos uma pessoa de pé, com os olhos fechados, a vibração do tendão de Aquiles gera uma sensação de ilusão de movimento como se o indivíduo se estivesse a mover para a frente, ocorrendo de seguida uma resposta motora na direção oposta, movendo o corpo para trás. O contrário ocorre quando efetuamos o mesmo procedimento no tibial anterior. Em ambas as situações verifica-se uma alteração do COP (center of pression) do pé. Estas reações serão moduladas por centros supraespinhais com efeitos imediatos no bodyscheme, e rapidamente integrados no planeamento motor. A título de curiosidade, ao vibrarmos um tendão de Aquiles, facilitamos uma condição postural de instabilidade e simultaneamente, observa-se uma co-contração dos músculos do tronco e da musculatura distal como resposta ao estímulo. Em termos motores, a avaliação da execução da tarefa mostra que com vibração há uma menor velocidade e amplitude de movimentos quando comparado com a ausência de vibração.

 

Adoro o facto de como com estímulos simples conseguimos desencadear uma série de reações corticais, manipulando o nosso cérebro, e estou mortinho por colocar em ação algum destes conceitos. Parece-me interessante a ideia de criar uma estimulação somato-sensorial como a vibração do Aquiles/tibial anterior, e adicionar este estímulo a um movimento funcional como o agachamento por exemplo, amplificando o sinal obtido no bodyscheme e criando variação importante no planeamento motor. Ou mesmo de utilizar situações de instabilidade para poder provocar alterações do mesmo movimento, criando representações motoras ao nível do planeamento diferentes e, que dotem o utente de um portfolio sensorial e motor mais colorido e rico. Ter a possibilidade de criar uma variabilidade de estímulos ao longo da sessão é sempre uma das minhas principais preocupações, quer por inúmeras questões e a utilização da vibração parece-me uma ferramenta interessante e que seguramente irei testar nos próximos tempos.

 

Só me falta arranjar um aparelho vibratório adequado à situação para deixar os meus utentes satisfeitos. Fffffffffuuuuuuuiiiiiiiiiiii

 

P.S. Cuidado com os pensamentos marotos pela conjugação de “aparelho vibratório” e “satisfação dos meus utentes” suas mentes perversas :p