Bang bang!!! Está tudo preso e acorrentado. O apocalipto (de morango) foi anunciado na semana passada em Alcochete, num anúncio violento que contou com a presença de mais de 50 figurantes.

Apesar do verde ser a cor da esperança, esta não está a ser uma semana fácil, e honestamente esse é um sentimento recorrente que presencio nos utentes que trato.

A evolução do modelo bio psicossocial e o seu crescimento exponencial vivenciado nos dias que correm, veio colocar a nu algumas dúvidas e lacunas que já pairavam sobre a minha pessoa. A título de exemplo, na lombalgia crónica, o fator ansiedade e depressão estão hoje sobejamente identificados como catalisadores do processo, e que devemos ter em consideração durante a anamnese e durante todo o processo terapêutico. E muito honestamente fico apático e desvitaminado, uma vez que sinto não ter as ferramentas necessárias para lidar com essas situações de uma forma efetiva, uma vez que não quero cair numa série de clichês, por não domínio da área, que ouço diariamente quando me relatam comentários de povo acerca da profissão que exerço. Felizmente, tenho a oportunidade de privar com profissionais da psicologia e psicoterapia que me ensinam e me orientam, quer em termos da identificação de resflags para derivar, quer em algumas estratégias a adotar nos tratamentos. E foi numa destas trocas informais de conhecimento, que partilhei uma experiência pessoal recente e para a qual ainda não tinha uma resposta adequada.

Quando escrevi o texto sobre a minha descrença na postura e nas suas consequências, pretendia desmistificar uma série de dogmas e axiomas enraizados. Passei das palavras aos atos, e em muitas das consultas comecei a minha cruzada contra os alinhamentos e as simetrias, e fui tentando cristianizar os meus utentes. O resultado não foi nada mais nada menos que um autêntico fracasso. Perdi credibilidade, gerei desconfiança do utente e em casos extremis cheguei mesmo a perder os utentes. Quando me dei conta do sucedido sentei-me e com uma calma olímpica decidi analisar e identificar os erros.

Comunicação deficitária, defraude das expectativas, gestão de tratamento incapaz foram algumas das hipóteses levantadas. Na altura a mais lógica pareceu-me uma extrapolação de uns gráficos de gestão onde se apresentam três curvas: a tecnológica, a social e a de necessidade. Ora eu estava, com a minha ideia, a criar uma curva tecnológica (+ rápida apresentação) sendo que em questões temporais a mesma não se adequa à curva das necessidades, que é a curva do utente, pelo que independentemente da veracidade do que lhe apresentava a mesma não iria ser valorizada porque o recetor anda a uma velocidade totalmente distinta da minha. Há que promover a sincronização e eu não estaria a fazê-lo. Talvez daqui a uns anos possa fazê-lo com menores represálias.

No entanto, não me havia lembrado de uma outra hipótese, passou-me completamente ao lado o compromisso que o utente estabelece com a doença. Mais do que nocebo, há pessoas em que a patologia lhe suga a alma tal e qual um dementor (do Harry Potter) e se apodera do seu corpo. A pessoa passa a ser uma marioneta, estando a sua personalidade, as emoções, os sentimentos e as altitudes à mercê de uma qualquer mão.

O convívio com a doença faz com que nos relacionemos com ela, que nos adaptemos, e que em determinada altura nos relacionemos enquanto casal. Há um comprometimento, porque só ela nalguns momentos nos percebe. Porque estar doente não traz só aspetos negativos, a atenção, a preocupação social, a desculpabilização são armas poderosíssimas e que não devemos subestimar. Há a criação de um vínculo que devemos compreender e que tem os seus timings próprios de desmame. E muitas vezes é preciso um trabalho em equipa para que possamos mudar a pessoa da sua zona de conforto. Porque independentemente dos aspetos negativos, a pessoa não deixa muitas vezes de estar no seu sweet spot, incomparavelmente melhor a uma qualquer mudança de hábito, de plano de vida ou de simples rotinas.

A patologia já faz parte da pessoa e a pessoa já é indissociável da patologia. Não concebo a dureza que é para alguém, deslocar-se a sua escoliose e a sua perna curta à consulta e de repente, zás pás trás. KO técnico. É fácil levar as pessoas ao tapete quando lhe tiramos de um modo violento a carpete. É giro, traz vídeos no YouTube mas também faz dói-dói.

Foi sem dúvida uma experiência importante e uma evolução necessária. Há que respeitar, informar, estando ciente que a nossa curva terapêutica terá de se alinhar com a curva do utente, respeitando o seu espaço pessoal, por forma a conseguirmos ajudar na sua evolução e no seu processo em saúde.

Bom restinho de semana minha gente. 🙂