IN(tero)CEPTION

 

Meus pequenos Piz Buin fator 50,

 

Agora que chega o verão, cuidado com essas dermes. Nada de ficarem estendidinhos ao sol e aproveitem as férias para pegar um cineminha que estão em exibição uma série de sequelas de filmes famosos. E utilizando essa dica, tenho uma novidade em ante-estreia para vos dar, e antes que comecem com as más-línguas a especular, não fui uma das vítimas do Harvey Weinstein. Adiante… (enquanto estimulam o córtex auditivo com o barulho crepitante das pessoas que ruminam pipocas e sugam coca-cola da mesma forma que os dementors sugam a alma ao Harry Potter tão típico de uma qualquer sala de cinema).

 

Venho por este meio anunciar que aqui o Mãozinhas foi convidado pelo senhor Christopher Nolan para ser o argumentista de uma sequela do Inception, e que de mútuo acordo, se irá chamar INTEROCEPTION. A música ficará a cargo do magistroso Hans Zimmer (vão lá ao Spotify, procurem a música “Now we are free” que vos poderá ser extremamente útil quando necessitarem daquela palmadinha na bunda reconfortante, tipo pancada na televisão quando a imagem perde qualidade).

 

Tendo por base o original, o guião contará com a capacidade do Sr. Dom Cobb de plantar informação no nosso SNC através de estímulos com consequências ao nível dos outputs e que permitam obter ganhos no contexto clínico.

 

Ser consciente é um culminar de um processo de maturação que nos retira a simplicidade de perceber processos e nos vicia nos paradigmas pré estabelecidos, sem noção de quais as bases que os sustentam. Pensarmos que o nosso cérebro processa estímulos e lhes dá, um conceito, uma visão histórica (anterior e futura) ou uma qualquer interpretação é um erro crasso. Isso é o “OUTPUT consciente” de um processo efetuado pelo nosso SNC e não um input. Urge perceber que mediante um estímulo, o nosso SNC cria uma imagem, que é a posteriori representada corticalmente e só numa última análise é dado um contexto, uma explicação. Se supusermos que estamos em cima de um plano inclinado, o SNC recebe um estímulo da oculo-motricidade, um estímulo da planta do pé e do ouvido interno (por exemplo), de forma individual e só num nível superior é que confronta a informação, lhe dá um contexto e realiza uma tomada de decisão. Esta será apenas a imagem que temos ao longe e, que nos deixa na dúvida de que o que contemplamos com o nervo ótico é um quadro ou apenas um puzzle. Neste caso, será seguramente um puzzle.

 

Nesta complexa rede, todas as tomadas de decisão devem ser efetuadas em função do conceito de milieu intérieur, descrito por Claude Bernard ao se referir ao ambiente extra-celular, mais propriamente ao fluido intersticial, e à sua capacidade fisiológica de manter a estabilidade protetiva dos tecidos e órgãos de um qualquer organismo multicelular.

 

Esta guerrilha entre milieu interno e externo, colocado em evidência por António Damásio, pode ser aplicado a qualquer circunstância e a qualquer tecido, desde as emoções a uma reação inflamatória tecidular. Tudo se processa em função da homeostasia e da ideia que o nosso corpo é capaz de reações alostáticas, que nos permitirão através de mudanças físicas, psicológicas ou comportamentais, manter o equilíbrio mesmo que tal seja praticado à luz de compensações e a curto prazo. O Santo Graal será sempre a segurança do milieu interno e sobretudo do seu sentimento de si, ou seja, da capacidade que o nosso corpo tem em a cada momento, se representar a ele próprio através das sensações que lhe são aferidas. E a isto damos o nome de Interocepção.

 

Sussurrar interocepção, é gritar o nome de Sir Charles Sherrington, explanando a sua conceção de sistema sensorial que incluía os sentidos teloreceptivos (visão e audição), proprioceptivos (posição de um membro), exterocepção (toque, temperatura e dor) e interocepção (órgãos/vísceras). No entanto, sabemos que através da neuroanatomia atualmente o sistema sensorial deve dividir-se em teloreceptivo, exteroceptivo /proprioceptivo (sistema A) e interoceptivo/nociceptivo (sistema B). As diferenças entre o sistema A e o sistema B vão desde a formação embriológica que vão desde a composição anatómica, ao tipo de fibras, à informação que conduzem e que em última instância modificam a perceção da informação.

 

O conceito de interocepção como sentido do corpo, foi segundo Craig, a ampliação das funções deste sistema, evoluindo da ideia de inputs viscerais, a uma via homeostática importante se pensarmos na regulação deste sentido de vida pelo Sistema Nervoso Autónomo (SNA). Mais do que um sistema simpático e parassimpático, é da moda atualizarmos a app do SNA e integrarmos a ideia que este deve ser dividido em “Noradrenergic Sympathetic System, Cholinergic Sympathetic System, Cholinergic Parasympathetic System, Adrenergic Parasympathetic System e Enteric Nervous system (Glodstein)”. Todo este aglomerado de sistemas tem a particularidade de ser comandado pelo SNC, mas possui um mecanismo reflexo de base, que lhe permite a utilização das próprias sensações para criação de um novo output, fazendo-o de forma autónoma e ajustado.

 

Para mim é fenomenal a perceção de que a informação interoceptiva, é nivelada em termos corticais no Córtex insular, local onde INfluem informações do paladar, cheiro, dor, toque e o mais incrível, as emoções. O sistema límbico comunica-se com o córtex insular, sendo este um meeting point chave entre os dois milieus (interno e externo) e do qual sai o guião a executar pelos atores (músculos, vísceras, etc.) utilizando o corpo (no conceito visual) como palco onde todo o teatro se realiza.

 

 

Pessoalmente, acredito que a patologia é estimulo-dependente, seja este fruto de um trauma físico, uma condição psicológica/social, uma característica genética ou uma doença adquirida. Independentemente do trigger desde que este desequilibre o equilibrado, inicia-se uma cascata de reações para colmatar a falha do sistema, e que em última instância nos aparecem como nocicepção. Sentir dor não deve ser confundido com lesão. Isso deve estar implícito na mensagem ao utente, assim como a nossa capacidade para que o diálogo, a descrição dos sintomas, as sensações terapêuticas que provocamos ao utente independentemente se seja toque ou do exercício, sejam a forma de comunicar do “inner body” devendo reconhecê-lo como parte percetual do processo.

 

Espero ter plantado a semente dentro dessa massa cinza. Agora levantem-se e andem… em direção à água que o sol está quente e um mergulhinho sabe sempre bem.

 

Um vem hajem!

Referências bibliográficas:

  • CRAIG, A.D. How do you feel? Interoception: the sense of the physiological condition of the body. 2002
  • CERRITELLI, F. Sensitization and Interoception as key neurological concepts in osteopathy and other manual medicines. 2015
  • GOLDSTEIN, D.S. Differential responses of components of the autonomic nervous system. 2013
  • DAMÁSIO, A. Sentimento de Si