Ressuscitou, ressuscitou, ressuscitou, aleluiaaaaaaaaaaaa (cantar este pequeno verso com o vosso melhor agudo digno do coro católico de São Jorge da Morrunhanha)!

UIIIIII calma que está muito altooooooooooo

Apesar destes meses de interregno, não sou nenhuma aparição divina. Certo que reapareço no mítico 13 de Outubro, mas já tenho a carta há mais de 8 anos e não ia estacionar a viatura celestinal e estacioná-la em cima de uma azinheira que aquilo pica imenso e ainda ficava com rabo mais edemaciado que a americana!

Confesso que já tinha saudades de manipular umas palavras e aplicar uns thrust frásicos para colocar a circular o LCR em modo TGV, e a pôr os neurónios aos tombos que nem uns carrinhos de choque na feira de São Mateus. No entanto, em determinados momentos do teatro da vida, há que fechar o pano e ficar sozinho no escuro do palco a escutar o barulho das luzes e deixar que o subconsciente venha à superfície. Os últimos meses foram sem dúvida dos mais difíceis com que tive de lidar a nível pessoal/profissional, físico/emocional, expetativa/medo. Entregar-me à profissão de corpo e alma, iniciar um novo ciclo de estudos e dedicação aos livros e aos artigos e paralelamente manter uma vida pessoal, faz-nos entrar numa dicotomia de sabores que decerto muitos de vocês reconhecerão. Foram 5 anos em osteopatia pela EOM, que me fizeram evoluir e amadurecer profissional e pessoalmente. Aprendi a dizer que não. Não aos amigos, às saídas noturnas, aos cafés e aos jantares. Até a alguns almoços de família. Foi aprender a ser crítico, comigo e com os outros. Foi sem dúvida um teste aos meus limites, à minha capacidade de sofrimento, à resiliência e à crença.

Ao findar este capítulo da minha vida com sucesso, dei por mim triste. Estava feliz mas simultaneamente estava invadido por uma melancolia fruto do fim de uma relação. Sim, isso mesmo, uma relação que durou cinco anos plena em felicidades e tristezas, em momentos de aventura e descoberta, em amor e ódio. No fundo, foi uma separação emocional. E como qualquer relação senti necessidade de efetuar o devido funeral e dar início a um luto emocional, chorando os meus medos, aceitando as minhas lágrimas e colocando-me de pé para iniciar brevemente uma nova caminhada.

E foi em plena jangada de pedra a navegar no centro de uma tempestade que veio à toa uma pergunta de pertinência extremis. QUEM ÉS TU? Apenas me apraz responder como o Romeiro, em Frei Luís de Sousa… NINGUÉM. E de repente um mar de ondulação trazia até mim mais perguntas. Sou fisioterapeuta, sou osteopata, sou fisiopata? Que serviço posso eu prestar e que nome lhe deverei dar, para que não sinta que ultrajei a profissão, os colegas e sobretudo os utentes. É como viver entre o sagrado e o profano, entre a moral e a questão legal. Não é justo dizer que sou um vegan fofinho num qualquer “daTerra” e no final da refeição ir comer bifes em casa às escondidas. A minha costela dinamarquesa não consegue interiorizar a ideia de poder transmitir que sou fisioterapeuta, quando depois aplico técnicas e conceitos osteopáticos, enquanto passo um recibo registado como serviço de fisioterapia. Assim como dizer que sou osteopata quando “não creio” em certas premissas básicas e essenciais à profissão (e quando nem sequer tenho cédula, mas isso já são outros quinhentos).

Sinto que sou uma mescla de materiais diferentes. Um tecido que mistura o algodão e a seda, que cria uma textura e uma experiência de toque única, não melhor ou pior, apenas ímpar.
Contudo, estou socialmente exposto e inserido num enquadramento legal que me obriga a ter uma etiqueta com as matérias-primas discriminadas e com isto não me poderei fazer passar por uma peça 100% algodão ou seda, variando consoante o interesse que o freguês demonstre. Seria hipocrisia se não me questionasse e preocupasse com esta situação e se não definisse certo limite pessoal e profissional. Vivemos tempos delicados no nosso sistema de saúde e não quero ser um veículo de má informação para o utente, constituindo uma fonte de iliteracia com consequências pessoais e a curto-prazo profissionais. Não me perdoaria se isso acontecesse. Não são esses os princípios com que rejo a minha prática e a minha vida.

Foi importante parar e preparar a etiqueta que virá com o tecido, por forma a esta ser o mais honesta e transparente possível, ser lúcida e simples, que espelhe de que matéria-prima sou feito e que possa ser “consumido” dentro do enquadramento legal adequado, sendo o mais justo possível com todas as partes. Não tem sido um caminho fácil e ainda tenho muitas perguntas para as quais não encontro respostas e posição. Porém, o assumir estas dúvidas, aceitar autocrítica e dispor-me a efetuar algumas mudanças cognitivo-comportamentais parece-me um primeiro passo simples para iniciar esta nova caminhada. Assobiar para o lado e saltitar entre as duas margens do rio não foi nem nunca será uma opção. Não sou o Phelps para se cair ao mar, nadar contra qualquer corrente e sair vitorioso. E decerto não irei parar com estas reflexões até sentir alguma paz emocional, que de momento ainda não existe.

Até lá, irei continuar a escrever uns textos, a desabafar e a utilizar as palavras para conseguir efetuar a transição entre o sub-consciente, elevando a emoção e os sentimentos a um nível consciente sempre com aquele sorriso simples e genuino à Roberto Benigni no A vida é bela.

Por hoje é tudo, ide em paz e que o senhor vos acompanhe. Ámen tchimmmmmmm

P.S. Ainda alusivo ao dia, deixo-vos um dos sketchs mais brilhantes que alguma vez contemplei acerca do mesmo. Desfrutem…