Substantivo feminino de origem obscura, bastante utilizado na região beirã, e que significa medo, miaúfa ou cagaço. Sentimento que surge invariavelmente associado a vários episódios da vida do quotidiano e que dependendo da utilização se poderá revelar como algo positivo ao invés da frequente conotação negativa.

Enquanto profissional de saúde, não duvido que é um sentimento que provoco frequentemente em quem cruza o meu caminho terapêutico. Os “homoactualis” têm medo de ter medo. E quando não aceitam que têm medo, verbalizam que têm receio. Que é como o cagaço mas mais gourmet. Fugir desse sentimento pode ser fatal, uma vez que este não é menos que a confrontação da nossa pessoa com os fantasmas internos que pairam sobre a nossa árvore de crenças. Se assusta? Sim e muito. Se é preciso coragem para os enfrentar? Óbvio. Mas o que dele virá será decerto muito positivo, pela sua capacidade de nos impulsionar, de nos fazer transcender e de nos inspirar a sonhar. Contudo, é necessário travar esta máquina infernal que devora o tempo, e centrarmo-nos na pessoa. Em nós. É olhar para dentro, assumir, sonhar e realizar. Sinto medo, todos os dias que me levanto. Uns dias ganho, uns dias perco. Mas nesta vida de batalhas sinto que tenho vindo a triunfar. Sigo uma máxima inscrita no peito:

deves combater uma ou duas vezes na vida, se combateres duzentas vezes é porque os combates são fracos” (Gonçalo M Tavares)

E dia após dia supero-me. O medo é essencial à vida, porque quem não o tem coloca em risco a sua própria existência e vitalidade. Daí sentir que é naquele instante em que o coração marca passo, que muitas pequenas grandes mudanças podem ser feitas. E é essa mensagem que me preocupo em transmitir.

Essa transmissão nem sempre é silenciosa, muitas vezes é ruidosa. Crepitante tal e qual o ranger dos joelhos num síndrome patelo femoral (SPF). Aquele frisson cru e nu que nos sustém a respiração e que assusta uma grande percentagem da população. Para a ciência o ruído dos joelhos é ainda misterioso, uma vez que o seu significado é duvidoso. Porém uma coisa é certa, a sua existência não está relacionada com a presença de lesão articular, não existindo uma relação entre barulho e doença. No entanto, é um sintoma que deve ser tão valorizado para o profissional de saúde como a dor, pois tal como está, a sua incompreensão pode trazer associado efeitos secundários nada desejados.

Quando enquadramos o utente num modelo bio-psico-social, devemos respeitar o sistema de crenças que este tem acerca da sua saúde, pelo impacto que as mesmas têm nos outcomes. O modelo de crenças em saúde é um modelo bio-psico-social focado nas crenças intra-pessoais com consequências comportamentais. A não compreensão do crepitar, que por si só tem uma conotação negativa, pode vir ainda ser reforçada pela desvalorização ou pela mensagem errónea transmitida pelos profissionais de saúde.

Grande parte das pessoas com crepitação ao nível dos joelhos, revelam que este lhes causa ansiedade e VIVEM frequentemente inseguros acerca das AVD’s. Para eles, este é um sinal de envelhecimento precoce, que surge devido a uma kizombada entre os dois ossos (sempre no roço) e que irão sofrer precocemente de artrose. O QUE É FALSO e GRAVE, uma vez que a primeira consequência que se verifica é uma diminuição dos níveis de atividade física, associado a alterações do movimento por forma a evitar o estalar.

Todas estas conexões levantam uma série de pensamentos negativos, que surgem de respostas emocionais negativas e que criam alterações no binómio consciente-inconsciente e que modificam em última instância todo o planeamento motor.

Ora neste teatro, a plateia de familiares, sociedade em geral e profissionais de saúde, vêm reforçar os sentimentos negativos. Os primeiros, porque permitem ao inconsciente abrir uma série de gavetas ligadas a memórias familiares de lesões ou problemas de joelhos. Os segundos pela pressão que exercem quer ao nível do barulho quer ao nível do futuro: “ tens os joelhos crocantes, deves consultar alguém”, “ui não faças esse barulho que me incomodas”, “já andas assim tão novo?”. Tudo isto é “healthbullying” e deve ser travado. E este travão deverá ser efetuado pelos profissionais de saúde. Apesar de não ser um sintoma maior deve ser tratado como tal. Devemos dedicar tempo à explicação do mesmo, a como efetuar o “self-management” por forma a veicularmos uma informação útil e relevante. DEVEMOS criar impacto e quebrar o ciclo medo-evitamento pela sua ligação aos pensamentos menos positivos. Caso tal não seja feito de forma atempada, poderemos cair num fenómeno de catastrofização com exacerbação dos sintomas e diminuição comportamental, pela relação que esta tem com uma pior funcionalidade.

A informação nociva é como os eucaliptos. Ardem num instante, têm longas raízes e em caso de incêndio os seus danos esvoaçam por muitos metros semeando o pânico e colhendo o medo.

Assim, é importante passar a mensagem que o crepitar poderá estar para o corpo, como o barulho/ronronar está para o estômago. É natural, fisiológico e sem impacto nocivo. Não está associado a lesões da estrutura (articulação e afins) sendo que as suas principais consequências são o evitamento de movimento, a criação de medo e ansiedade, com consequência nas atividades da vida diária, da participação social bem como no conceito de auto-estima e auto-percepção. Deixemo-nos de ruídos de fundo e vivamos a vida com o medo na devida proporção e com um sorriso no rosto.

 

CLACK, RRRRRRRR, POWWWWWW

Referências bibliográficas: