Decorria o ano de 2005, era eu cachopo com os meus 16 anos e vibrava ao som de uma música chamada “I wonder” de um artista de seu nome Gomo. Certo que ainda estava deprimido com a final do Euro 2004, e não conseguia comer a laranja toda e então ia gomo-a-gomo. Na altura ainda não conhecia os poderes do éter ao nível da cura das mágoas.

Contudo, utilizei esse conhecimento adquirido, nesta virada do ano quando senti que a melancolia e a depressão possuíram este corpo. Acordei em 2019, como o Stevie Wonder “cego” e com aquela latero-flexão típica que ele reproduz de forma tão harmónica e fluída, agarrado ao telefone enquanto canta “I just call to say i love you” (que foi o que o meu estômago fez comigo). Adiante… Naquele estado vegetativo em que estava imbuído, imaginei-me numa conversa com o Stevie. Tinha tanto para lhe perguntar acerca do seu processo criativo. Mas num segundo instante, ao levantar-me, olhei para o lado e inspirado pelo meu livro da mesinha de cabeceira (Sapiens, Uma breve história da humanidade) caiu em mim a ficha de sonhador, coloquei o indicador sobre o lábio e questionei-me:

Qual espécie resultaria do cruzamento numa noite tórrida de paixão entre a Maria Leal e o Stevie Wonder? Seria o Beto, aquele ex-jogador do Benfica ( https://maisfutebol.iol.pt/multimedia/oratvi/multimedia/imagem/id/229316/960 )? E como seria o movimento do pescoço? Seria uma pomba que alternava movimentos de AP com movimentos de latero-flexão? Peço-vos encarecidamente que me ajudem a resolver esta questão para ver se consigo retirar esta imagem da minha mente, para que possa avançar no novo ano. É que sinto que acabei de levar uma entrada a pés juntos do Beto e não fiquei muito bem tratado. E aposto que ele também não, que chocou de calcanhar e quando se levantou disse que lhe estava a doer o pé.

Mas como a vida é feita de oportunidades, levantei-me e decidi fazer algo útil e fui pesquisar um pouquinho mais acerca das dores que surgem ao nível do calcanhar.

 

Ao longo da minha prática clínica tenho notado a dificuldade do utente em comunicar com o profissional de saúde. É difícil, acredito que por vergonha em errar, do paciente de se fazer explicar e de nomear a região que lhe causa a maleita. É frequente a queixa inicial ser no artelho, mas quando usamos o teste do “aponte o sítio onde lhe dói” o dedo fugir para lugares mais recônditos do pé.

Na região calcânea ocorre o mesmo problema talvez por ser uma área menos interoceptiva para a pessoa. Sendo uma estrutura de carga (e tão importante que é o choque de calcanhar na criação de um input vertical durante a marcha atuando na criação uma extensão em cadeia), é normal que grande parte dos problemas nesta estrutura se desenvolvam pelo excesso de peso (fator de risco) e pela idade. É frequente que qualquer queixa associada a esta região se deva a dois fatores: fasceíte plantar e um esporão do calcâneo. Todavia e apesar da incidência frequente, devido aos abusos dos ECD (exames complementares de diagnóstico) os estudos que temos, conferem-nos a possibilidade de perceber que tal como noutras áreas não existe relação entre a dor e a imagiologia. Pelo que o diagnóstico em si, deve ser feito essencialmente com base na história clínica. Mesmo a palpação deve ser usada com reservas, pela facilidade de criação de um estímulo nociceptivo local.

 

Ressalvando a diferença entre dor e estrutura, precisamos de ter presente quais as estruturas de relevo a considerar num diagnóstico diferencial no caso de uma dor no calcâneo. Orientamos o nosso foco nas estruturas músculos esqueléticos, sobretudo as de origem tendínea. Atender que o tendão de Aquiles, o curto e longo peroneal, o tibial posterior e o flexor longo do hálux são importantes na estabilidade e na mobilidade e motilidade do calcâneo.

 

No entanto, há estruturas camaleónicas pela sua capacidade de mimetizar os sintomas músculo esqueléticos afastando o clínico da fonte do problema. A dor de origem neural pode ter origem desde uma alteração proximal (coluna lombar e sacro) como a nível distal (ao nível dos retináculos laterais). O nervo tibial posterior por exemplo, divide-se a nível do retináculo em nervo plantar medial e lateral (também conhecido como nervo calcâneo) e que pela sua superficialidade podem originar sintomatologia. Não esquecer da síndrome do túnel társico que afeta o nervo tibial na sua passagem pelo pé e originando uma neuropatia compressiva.

 

Não esquecer nunca a importância da estrutura óssea e articular da região e que pode ser parte ativa e importante da sintomatologia nesta região. Contudo esta região é sem dúvida um apelo à nossa criatividade. Que nos grita ao modelo bio-psico-social, que nos pede para avaliar a marcha, a quantidade e distribuição do peso da pessoa, a emoção e a dificuldade que a pessoa coloca em cada passo. O arrastar que é dar um passo sequer. No fundo é o reflexo do seu peso, interno e externo. É preciso negociar a descarga com a carga. É preciso mestria na gestão clínica e na comunicação dos elementos fundamentais, para que o utente possa ter o empowerment necessário e que a tomada da sua decisão seja plena em consciência.  No fundo, é criar as bases de uma saúde positiva. Devemos calçar as luvas e manusear estes casos como se estivéssemos a meio de um jogo de Mikado e sentir o feeling de forma a percebermos qual a esfera do modelo bio-psico-social que mais está presente no momento. Apesar da sua interdependência não se pressupõe que as três áreas estejam equitativamente distribuídas por utente. Ou seja, que num processo clínico cada uma pese 33,33 % aproximadamente. Numas pessoas a esfera psicológica pesará 60%, enquanto noutras poderá pesar 20% tendo as outras esferas o peso.  Essa é uma das características da individualidade e que deverá ser entendida e respeitada para que tudo faça sentido e encaixe na perfeição.

 

E já dizia o velho Herodes, “relaxa que encaixa”. Se calhar não era o Herodes, era o Tomás Taveira, mas vocês entenderam. Agora descansem que para a semana já vem um apontamento com algumas dicas para o diagnóstico e exame clínico da dor no calcâneo 😀

 

Bacio