Penso, frequentemente, no dia em que as minhas costas assentarão a sete palmos de terra. Confesso que temo mais a humidade e a terra fria, pelo potencial nocivo para os brônquios, que a partida e a ida em si. Da PARTida, apenas me preocupa a parte que fica e não a parte que vai comigo. Chamo-lhe de legado emocional, porque sinto que é isso que as pessoas que embarcam nos deixam. É isso que faz com que umas perdurem mais no tempo que outras. E eu quero ser parte da estimulação cognitiva post mortem das pessoas que me rodeiam e que permitem que lhes toque durante a vida. É esse o meu objetivo diário. Deixar uma pequena pegada na areia nas pessoas que cruzam a minha vida, de modo que se relembrem de mim e passem esse ensinamento a alguém. Enquanto essa história perdurar o meu objetivo enquanto ser vertical foi concluído. Uma espécie de ensinamento em cadeia.

Gosto da ideia filosófica de pensar. Do ato em si, das conexões neurais, da rebeldia dos pensamentos. Supostamente hoje viria complementar o texto da semana passada, abordando o processo clínico de raciocínio em situações de dor ao nível do calcâneo com um breve resumo dos passos a seguir nesses casos. Podem encontrar o apontamento e descarregá-lo no fim de lerem estas palavras.

Mas soava-me a pouco. Era parco, a roçar a cru na sua essência. Não se enquadrava no meu objetivo de vida, porque não acrescentava o suficiente. Saber que passos clínicos dar, o que procurar e o que interpretar é essencial. Mas em si, é básico e integra exclusivamente a ideologia de um modelo biomédico. É a patologia que interessa. É o foco, a luz ao fundo do túnel. Decidi fechar os olhos e percorrer o túnel às palpadelas, e caminhar até encontrar a minha direção.

E pasme-se quem acha que descobri algo novo. Não, muito pelo contrário. Perdi-me na década de 70 a ler textos de George L. Engel, um dos cérebros do modelo biopsicossocial. Senti que ler a obra dele, é no fundo inverter a minha ideia de legado. É deleitar-me pelas palavras de alguém que mudou a saúde, e me mudou a mim. É sentir que 40 anos depois transmito as suas ideias e faço jus à sua escrita. A clareza de ideias e raciocínio é fascinante. Gosto de ir à génese e à raiz, de sentir a resistência que a ligação à terra nos dá quando puxamos. Gosto desse fio terra.

 

Ao afastar-me dos manuscritos, sinto que apesar de ser o modelo aceite nos dias que correm, continuamos formatados e a aplicar uma perspetiva biomédica.

O modo como abordamos os pacientes é altamente inflacionado pelos modelos conceptuais que temos presentes a que se associa a organização de conhecimentos que o profissional possui. Numa época onde essa informação circula a uma velocidade estonteante, ou possuímos bases sólidas ou ficamos retidos numa teia de informação puxando para nós as vítimas que pacientemente esperam pela nossa ajuda.

Este conceptualização inicia-se num período inicial de aprendizagem (escola, formação acessória, etc.) quando somos encorajados por professores, mentores ou colegas de profissão a seguir. Num tempo de influencers, youtubers e followers essa tendência agudiza-se de forma patológica. O facto de não haver uma abordagem crítica, quase filosófica acerca do raciocínio e do pensamento crítico leva-nos a aceitar e a não questionar. Se polvilharmos este cocktail com uma necessidade de vender, marketing e lucro, afastamo-nos da essência da medicina enquanto disciplina humana, que envolve duas ou mais pessoas. Há uma necessidade inicial do paciente, que se liga à expetativa secundária que este tem ao usufruir de um serviço prestado por terceiros. Neste jogo há duas expetativas que não devem ser desvalorizadas. A do paciente, que aguarda que o profissional o ajude nas suas queixas de forma competente e profissional (a forma clássica) e a do profissional, que coloca no paciente a expetativa de uma melhoria, de um trabalho conjunto e de um “task-defined activities” que seja profícuo.

Esta gestão na dualidade de expetativas é ouro nos dias de hoje. Quando gerido de forma meticulosa conduz ao sucesso e permite a satisfação de ambos.

Todo o processo de “diagnóstico”, é no fundo um processo científico. Iniciamos com um problema do paciente, escutamos as queixas e os sintomas, as emoções e as experiências e avançamos para o passo seguinte. A formulação de uma hipótese que tem por base um raciocínio clínico explicativo que deriva num momento em que devemos conseguir o “engagement” do paciente para a sua colaboração no estudo que é a aplicação de um processo terapêutico. A delegação de responsabilidades e o trabalho complementário com o paciente é essencial. No fundo é tratar a pessoa, fomentando uma humanização do paciente, acabando este por ser um pleonasmo irónico, pela necessidade que temos de dar vida a um ser vivo.

A grande falha do modelo biomédico, é que não integrava a pessoa como um ser vivo. Foi esse o grande trunfo do modelo biopsicossocial. Há em todo ele, um respeito pelo modelo científico, sendo que centrando a pessoa como objeto de estudo, percebe que para que a recolha de dados seja efetiva tem de haver a criação de uma relação. Isso mesmo. RE-LA-ÇÃO. Podemos dizer sem medo, que não nos come. Sabemos que não é um perfil de facebook, ou uma conta do twitter, mas é isso mesmo que temos de criar com esses indivíduos de carne e osso.

Para que não haja uma negligência do objeto de estudo, o paciente, há que valorizar dados como o perfil psicológico ou comportamental deste.

Ser global, implica conhecer as partes constituintes de um todo. Implica intelectualizar que a natureza é uma cadeia, uma hierarquia, que assenta numa teoria de sistemas em que unidades menos complexas e menores fazem parte de um bolo de unidades maiores e mais complexas.

O ser humano é no fundo uma matrioska russa, em que cada nível hierárquico está organizado de forma dinâmica, pertencendo cada parte a um sistema que se organiza e que justifique a atribuição de um nome. Esta característica nominal não é nem mais nem menos que uma propriedade distintiva entre sistemas. Somos moléculas, que formamos organelos, e derivamos em células, formando tecidos que em última instância são órgãos, comandados por um sistema nervoso, integrados numa pessoa, que se relaciona com outro terráqueo, num duo dinâmico integrado, quiçá numa família, que vive em comunidade e respeita uma cultura própria de um país que faz parte desta nossa biosfera.

Mas estes sistemas possuem um nível de organização e de relação que faz com que sejam independentes na dependência uns dos outros. Cada uma das partes tem as suas regras e métodos próprios, obedecendo a regras superiores. No fundo, cada um dos sistemas é ao mesmo tempo um componente de um sistema maior. Nesta continuidade natural de sistemas, cada unidade é simultaneamente uma parte e um todo. Não há um isolamento, porque quer seja um órgão ou uma célula, este é parte de um ambiente.

O termo paciente, caracteriza um indivíduo em termos de sistema social, e no momento da sua caracterização por nome, sexo, idade, raça ou residência estamos a identificar camadas da matrioska. Na prática clínica, aceitamos tratar a pessoa na sua integração de sistemas. Por mais que tentemos, não podemos isolar a célula, o órgão ou o sistema nervoso. É uma verdade que nos remete para a dualidade sadomasoquista de uma dor prazerosa que é envolvermo-nos neste processo de alma e coração.

Se separarmos a ciência da humanidade, se formos reducionistas, acabamos por focar-nos na doença, no tecido e na célula, esquecendo o paciente como pessoa. Contudo, se ao planearmos a nossa abordagem, tivermos consciência e integrarmos as hierarquias apresentadas na figura 1, respeitamos a pessoa no seu particular e na sua globalidade, e conseguimos reunir uma série de características que será útil no momento da tomada de decisão clínica. Há em última instância que respeitar a harmonia Intra e inter-sistémica.

A patologia em si, inicia-se num momento molecular, altera o ambiente celular e o tecido, mas só toma o seu lugar quando a pessoa toma consciência e é implicada em todo o processo. A chave é sem dúvida o papel do sistema nervoso central pela integração e regulação da pessoa e que condiciona os sistemas que estão acima e abaixo de si.

Há, no entanto, que garantir uma taillored intervention ao paciente. Isto é, perceber que nem todas as fatias do bolo representado ao paciente são iguais. Na sua forma biopsicossocial, em determinados momentos podemos ter mais responsabilidade da componente biológica ao invés da componente psicológica e assim sucessivamente.

Em suma, devemos integrar que para melhor servir o paciente devemos valorizar todos os sistemas que formam a hierarquia. E preocuparmo-nos com a pessoa, a família ou o seu ambiente social, não é um ato de compaixão ou humanidade, mas sim a aplicação rigorosa dos princípios da ciência humana. Pratiquemo-la com dedicação e afeto.

Pronto Pronto, já não chateio mais. Podem descarregar o ficheiro com os apontamentos.

Até para a semana meu povo 😀

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