Ei malta, tudo em cima?

O tempo voa e hoje ao começar a debitar palavras é que me caiu a ficha que já passaram 70 textos desde que iniciei esta aventura. Por forma a comemorar sinto que devo dar um pouco de mim neste texto, de me expor para que me conheçam tal como sou. É dar o ónus e o bónus. Para tal vou partilhar duas curiosidades acerca do meu boneco.

Como vocês decerto já perceberam, eu não jogo com o baralho todo. Já há muito que perdi os ASES e os três (piada de baixo nível confesso). Ainda assim dou por mim muitas vezes a jogar a um jogo que é o “Eu gostava de gostar de”.

Ora o jogo baseia-se naquela sensação que nos invade quando ouvimos falar de coisas que deixam as outras pessoas excitadíssimas, com aquele nipple runner ereto, mas que vocês pura e simplesmente abominam. O problema é quando 99% da sociedade faz extensão dorsal, ativa o risorius e diz com aquele tom jocoso de quem se sente a falar do Evereste para os Países Baixos “COMO NÃO GOSTAS? É IMPOSSÍVEL”.

Deixem-me cá exemplificar, para que a situação fique mais clara. Eu gostava de gostar do Carnaval. Gostava de gostar de míscaros. Gostava de gostar da Passagem de Ano. Eita que acabei de perceber que não gosto de tudo o que faz as pessoas felizes. Espero que isto não faça de mim um sociopata.

Mas adiante. Outra das minhas paranoias é guardar álbuns, séries, filmes e livros que eu sei que são extremamente bons e fraturantes e guardá-los para determinados momentos. Por exemplo, leio um livro de Saramago a cada 3 anos, de maneira a poder ler textos sem pontuação até à velhice. Confesso ainda que só ouvi este ano, na íntegra e seguido, o “The Dark Side of the Moon” dos Pink Floyd apesar de já conhecer todas as músicas.

E é nesta categoria que se encontra o MATRIX. No fundo faço com a cultura o que a malta faz com os bunkers, no caso de uma guerra nuclear. Guardo lá material de qualidade para utilizar numa altura de escassez de recursos.

Guardo com ansiedade o momento em que farei play na trilogia do Matrix. Anseio por aquele movimento Cirque du Solei do NEO a fugir das balas. É que é preciso hipermobilidade para conseguir um ângulo reto ao nível lombo-sagrado.

E por falar em hipermobilidade, já reparam que a procura da mobilidade perfeita tem vindo a aumentar nos últimos tempos? Diariamente, é frequente na minha prática clínica observar que a mobilidade é uma das preocupações mais verbalizadas pelos pacientes e que muitos associam a falta desta, a um menor health status que advém de uma diminuição do seu nível de funcionalidade.

Contudo, espantou-me a quantidade de pacientes que se cruzaram comigo e evidenciavam uma Joint Hypermobility (JH). Esta condição genética caracteriza-se por um aumento anormal de ROM articular. A prevalência de JH diminui com a idade, apresentando um pico de 34% entre os 20-30 anos e descendo para os 18,4 % em pessoas acima dos 60 anos. É mais frequente nas mulheres do que nos homens num ratio de 2:1.

Em termos clínicos há que diferenciar a JH do Joint Hypermobility Syndrome (JHS), que é uma reconhecida condição reumatológica que associa a hipermobilidade com artralgia, lesões dos tecidos moles e instabilidade articular. O diagnóstico desta condição deve ser feita através da história clínica, correlacionando a posteriori os sinais e sintomas com a da aplicação da escala de BEIGHTON.

De salientar que o JHS é um conceito em verdadeira mutação e ebulição tendo nos últimos anos perdido o rótulo de condição puramente músculo-esquelética passando a ser vista como uma condição multi-sistémica do tecido conetivo com afetação de todos os sistemas corporais. A evolução do conceito da doença pode ser observada na seguinte imagem.

A JHS tem consequências físicas e psicológicas. Em termos físicos temos de dar foco ao sistema músculo-esquelético mas também ao sistema visceral onde se destacam os prolapsos uterinos ou as alterações da motilidade gastro intestinal. Todas estas alterações geram alterações psicológicas quer pelo estado de dor crónica, quer pelas fobias e ansiedade. Há porém, um longo caminho a percorrer pelo que ao se debruçarem sobre o tema, verão um sem número de associações entre a JHS e o Ehlers-Danlos Syndromehypermobility type (formerly, EDS type III).

 

Voltando ao trilho, do diálogo com pessoas com JH, foi percetível que há uma série de dogmas e mitos que estes carregam e, que tiveram origem nalgum conhecimento empírico ou que foi fomentado por algum profissional de saúde, sobretudo no que à prática desportiva diz respeito. É comum ouvir que são uma sub-população mais suscetível a lesões, que não devem praticar desportos de contacto ou que irão sofrer de patologia articular de forma precoce.

No entanto, pela análise da evidência disponível não é credível associar a JH com aumento da taxa de lesão decorrente da prática desportiva. Ao invés alguns estudos apontam inclusive que a JH pode funcionar de forma protetiva na lesão muscular e ligamentar criando um efeito benigno que advém do excesso de ROM e da adaptação ao stress. Todavia, em casos severos é possível que pessoas com esta condição apresentem taxas de luxação articular mais elevadas que a população sem condição. Estes são apenas alguns highlights que carecem de mais desenvolvimento e estudo científico.

Por norma, crio a minha abordagem incentivando sempre o utente à prática desportiva desde que o faça com gosto e pela sua saúde. Sem medos. Gosto de criar momentos de interocepção, onde o utente se descobre a si mesmo onde estimula o body scheme. Percebe quais os limites fisiológicos, onde deve travar “corticalmente” o movimento, quais os cuidados primários a ter e que aspetos a vigiar. Foco-me no movimento e nas sensações que os pacientes retiram dele. Procuro integrá-los no gesto técnico e nos exercícios acessórios que costumam fazer. Sobrevalorizo o trabalho de força muscular, com algum ênfase na componente excêntrica pela gestão da carga a nível tendinoso, para que o stress articular possa ser dissipado de forma mais económica e logo menos lesiva. Mediante os casos e de forma preventiva ensino a efetuar uma ligadura, e a utilizar uma métrica para a sua avaliação. Sempre na base do “nem sempre nem nunca”.

E ensino, explico, e ensino de novo. Sinto que nestes casos temos toda uma tela de educação para a saúde que podemos pintar, e que sairá um quadro bem colorido e pleno em felicidade.

 

Para terminar apenas uma nota acerca da escala de Beighton. Como esta não avalia o movimento em articulações como o ombro, a coluna cervical ou a tibio-társica, devemos interpretá-la sempre com essa ressalva, e devemos incluir uma avaliação específica dessas articulações em prol do paciente que devemos intervir.

Ciao meu povo 😀

Referências bibliográficas: